FUVEST 2018 - Devem existir limites para a arte?

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Mensagem por Ferrazini em Sab 07 Dez 2019, 16:54

Lucro e preconceito

  Em 1988, foi promulgada a atual Constituição Federal do Brasil, a qual possui, entre as suas garantias fundamentais, a garantia da liberdade de expressão. Porém, é importante salientar que existem punições contra eventuais transgressões à lei no ato da manifestação. Entretanto, apesar de já existir regulamentação contra possíveis excessos do artista, setores da sociedade buscam limitar a arte por meio da censura, o que revela que a questão em torno da proibição da livre manifestação artística carrega uma conotação cultural, marcada pelo preconceito contra minorias políticas, e interesses econômicos.
  
  Nesse contexto, Jurgen Habermas, sociólogo da Escola de Frankfurt, explica que a regulação social é resultado da visão de mundo de uma maioria política que domina as instituições sociais responsáveis pelo controle da sociedade. Logo, pelo fato do Brasil ter sido dominado por uma elite católica, patriarcal e escravista durante séculos, as minorias políticas, como negros e pobres, ainda sofrem com a opressão contra as suas manifestações culturais. Para ilustrar, no começo do século XX, o samba, estilo musical de matriz negra, era proibido e se uma pessoa andasse na rua com um pandeiro, ela era presa. Ademais, hoje em dia, no início do século XXI, busca-se criminalizar o funk nacional, uma expressão artística que tem suas raízes nas favelas e periferias do país.
  
  Outrossim, além da discriminação contra a produção popular, existem interesses econômicos que fortalecem os anseios pela limitação da arte. Segundo o sociólogo Theodor Adorno, a Indústria Cultural cria uma série de produtos artísticos que visam a tornar a sociedade acrítica e cada vez mais consumista, de modo a garantir altos lucros aos donos dos meios de produção. Todavia, a reprodução dessa lógica, conhecida como "Cultura de Massa", passa a ser ameaçada na medida em que produções críticas ganham popularidade, pois elas buscam desconstruir a visão de mundo capitalista e excludente que domina a sociedade. Por conseguinte, a censura se torna uma ferramenta atrativa àqueles que buscam ocultar a realidade e manter o "status quo".

  Destarte, conclui-se que não se pode ceder aos anseios de uma parcela da sociedade que busca manter o controle e a opressão sobre as pessoas menos favorecidas. Então, é inaceitável que produções culturais sejam limitadas e censuradas, pois a arte é uma importante ferramenta de transformação social. Além do mais, a Constituição Federal garante a livre expressão artística, e limitá-la significaria desrespeitar aquilo que o texto constitucional diz, ou seja, seria uma grave violação ao Estado Democrático de Direito brasileiro.

*Alguém poderia atribuir uma nota e apontar erros? Obrigado!!

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Mensagem por Lucas Louzada em Dom 15 Dez 2019, 00:21

Eae, Ferrazini, beleza?

Vejo que tua redação é bem quadradinha, bonitinha. Ao que parece, você usa um modelo bastante similar ao do ENEM, mas, na conclusão, como a Fuvest não exige proposta de intervenção, você faz algo mais simples, apenas retomando de uma forma bem geral. Se essa redação fosse escrita para o ENEM, eu teria poucos apontamentos pra fazer, já que ela está muito boa. Todavia, para a Fuvest, você precisaria fazer algumas boas alterações, creio.

Quero que você entenda que a redação da Fuvest exige uma habilidade linguística e de escrita acima do modelo básico de redação do ENEM, de forma que um aluno 960~980 na redação do ENEM dificilmente tiraria 80~85 na redação da Fuvest sem fazer alterações no estilo de escrita.  

Os corretores da Fuvest são os próprios doutores professores da USP, escolhidos a dedo, e não meros zé ninguéns corretores de ENEM, muitos dos quais mal sabem direito as regras de concordância verbal. São corretores escolhidos a dedo e com enormes capacidades linguísticas. Eles têm pleno conhecimento de como é esse "padrãozinho" ENEM e têm certa repulsa a ele porque não demonstra bem suas habilidades de escrita, visto que é algo mecânico, decorado.

Vamos ver algumas alterações que você poderia fazer no seu estilo de escrita para que atinja 85~95 na redação da Fuvest.

Sobre o seu título:

O seu título está totalmente fraco, sem apelo linguístico nenhum. Não desperta nenhuma emoção no corretor da USP. Você precisa mudar isso.

Havia uma redação da Fuvest cujo título era algo assim: "Ao vencedor, o hipermercado".

Perceba que esse título faz uma intertextualidade com a célebre frase do livro Quincas Borba de Machado de Assis: "Ao vencedor, as batatas". Faz, ainda, uma paródia da frase, porque altera uma parte dela pra se adequar ao tema, que era consumismo, se não me engano. 

Quando o corretor da Fuvest pega uma redação dessa, só de bater o olho no título, já fica confiante no aluno, contente com ele, esperando, de fato, que ele tire uma nota excepcional, ao contrário do seu título, que, por outro lado, aparentemente, não acrescenta nada à redação - e muitos alunos farão títulos medíocres no dia da prova; não seja esse aluno. Eu sei que seu título diz respeito aos seus dois núcleos argumentativos principais, mas e daí? A ausência dele não mudaria a redação em nada.

Sem dúvida alguma, o corretor vai fazer a relação com o livro de Machado, apenas com a leitura inicial das quatro palavras do título que eu exemplifiquei. A partir daí, ele vai esperar uma redação excepcional, muito acima da média.

Perceba que esse aluno poderia, ainda, terminar a redação dele com alguma variação da frase: "Ao vencido, ódio ou compaixão", que faz parte de "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas", presente no livro. Sem dúvida alguma, o corretor também conseguiria fazer essa associação com o livro, mesmo sem o aluno explicar diretamente, e a redação da pessoa ficaria cíclica, já que o último período da redação seria a continuação do primeiro período da redação, isto é, do título. Alguém que consegue fazer isso que eu descrevi possui um grande potencial para gabaritar uma redação de Fuvest, ou, então, tirar acima de 90.

Sobre os seus parágrafos argumentativos:

No segundo parágrafo da sua redação, você tem a ideia de trazer o exemplo do Funk como expressão artística contemporânea estigmatizada e que se quer criminalizar, ou seja, se quer colocar um "limite" nesse tipo de arte, para usar a palavra do tema,  embora você não deixe essa ideia totalmente explícita. Trouxe, ainda, uma ideia de Habermas não muito usada, porém aplicada de forma rasa. 

O meu núcleo argumentativo desse parágrafo da redação também seria sobre o preconceito contra certos tipos de arte, e eu citaria o Funk também, mas veja como eu confeccionaria o parágrafo para ter uma nota muito próxima de 100 na redação da Fuvest:

Eu poderia usar história, assim como você fez, para chegar à descrição da realidade atual do Funk, dizendo que no século XVIII surgia um movimento literário (Romantismo) que serviria para atender às necessidades artísticas e culturais específicas de um certo contingente populacional (burguesia nascente), o que se deu, sobretudo, pelo fenômeno da venda de folhetins periodicamente. Analogamente, na atualidade, de forma similar à emergência de uma burguesia com necessidades artísticas específicas nos séculos 18/19, surge, na realidade carioca do século 21, uma população, também, com ambições culturais imanentes à sua realidade socioeconômica. No âmbito das favelas, as crianças e os jovens sentem a necessidade de criar um estilo musical que os representa, que lhes confere identidade, que trata efetivamente de sua realidade, que fala de drogas, sexo, e criminalidade, que é o que vivem diariamente. Dessas necessidades de reafirmação da própria existência/identidade é que se criam estilos específicos de arte, como, no caso, o Funk. Essa profusão de estilos/artes, por sua vez, parecem ferir a concepção de arte arraigada e intransigente de outros grupos populacionais, que querem criminalizar o Funk, impor “limites”, barreiras à expressão artística humana.

De forma básica, o “conteúdo” do meu parágrafo seria esse, que descrevi acima. Esse conteúdo, escrito de uma forma gramaticalmente decente, ficaria Ok, bom para a Fuvest. Mas eu não pararia por aí, apelaria ainda mais (e é isso que o corretor da Fuvest quer de uma redação excelente):

O tema é, sucintamente, “limite para as artes”, certo? E sobre o que nós estamos discorrendo no segundo parágrafo da redação? Nós estamos dissertando sobre o fato de que há uma “cultura/arte elite” e uma “cultura/arte periférica, suburbana”, não é? A diferença é que você fala da expressão cultural da matriz negra do passado, e eu faço um paralelo com o Romantismo. Beleza, bons parágrafos, tanto o seu, quanto o meu. Mas veja o que eu faria para impressionar o corretor (já que a Fuvest quer que você impressione, e não simplesmente faça uma redação “quadradinha” estilo ENEM):

Sabe o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias? Então, eu usaria isso, porém faria em forma de paródia, fazendo uma sutil intertextualidade a qual certamente seria notada pelo corretor. Todos nós temos decorados os seguintes versos: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

No poema, “minha terra” é, como já sabemos, o Brasil; “lá”, é Portugal. Nessa obra, o que se quer dizer, sob viés nacionalista, é que um país, uma localidade é melhor que a outra; que as aves no Brasil gorjeiam de forma mais bonita; que o céu do Brasil é mais bonito e tem mais estrelas; que as várzeas do Brasil são mais frondosas e bonitas do que as de Portugal. De forma análoga, a população periférica e socialmente vulnerável da urbe tupiniquim pode afirmar, com assaz convicção: “minha terra tem biqueiras, onde canta o 38; as que a balas que aqui estouram não estouram como lá”. Nesse sentido, será que o pessoal do “” (eu escreveria exatamente assim na redação**) conhece mesmo a população do “aqui” a ponto de dizer que se deve colocar um limite em sua arte? Ela tem mesmo a moral para impor seu umbiguismo artístico de dentro de seus enclaves fortificados protegidos por seus Spitz alemães? São perguntas retóricas, claramente.

Veja que eu faria isso de forma sutil, e sem tantas explicações. Mesmo assim, a redação ficaria absurdamente irreverente, argumentativamente agressiva, fervorosa e instigante para o interlocutor (corretor da USP). Certamente, eu jamais faria algo assim no ENEM, jamais, porque a redação de lá é, de fato, “quadradinha” e sem muitos floreios. Na minha concepção, alguém que faz algo assim constantemente ao longo do texto, tira 100 na redação da Fuvest. Se eu deixasse o parágrafo só com aquelas explicaçõezinhas históricas e medíocres sobre o Romantismo, a redação estaria normalzinha, certinha, mas será que assim daria pra conseguir nota suficiente pra competir com alunos de cursos muito concorridos? Não. Eu quero um 95, e não um 77~80.

Veja, Ferrazini: o corretor da Fuvest quer um aluno que use um Gonçalves Dias (por exemplo) com esse nível de autoria. Na Fuvest, não vai funcionar você decorar conceitozinhos triviais de filósofos “pop”, a exemplo de Bauman, Habermas, etc, etc. Não estou falando que não pode usá-los; se você conseguir permear a sua redação com esses pensadores de forma autoral, será muito bem-vindo, mas os corretores vão estar de saco cheio de ler sobre “indústria cultural” ou “modernidade líquida” usadas de forma ineficiente. Quer usar Sartre? Use certo. Quer usar Aristóteles? Use certo. Foucault? A mesma coisa. Do contrário, você vai perder pontos preciosíssimos. 

** Eu usaria na redação esse processo de formação de palavras conhecido por “derivação imprópria”, isto é, transformei os termos “lá” e “aqui”, do poema, que são classificados morfologicamente como pronomes demonstrativos, em substantivos. Essas manobras linguísticas são muito bem-vindas no texto para a Fuvest, como as anáforas, hipérbatos, silepses propositais, zeugmas… Perceba, entretanto, que usar anáforas no ENEM seria praticamente suicídio, mas, na Fuvest, de maneira intencional, são bastante positivas. 

Em suma, o segundo parágrafo da sua redação está muito bom. A bagagem cultural histórica não é usual, é algo que destacaria sua redação da dos concorrentes. O Habermas não foi usado de forma tão eficiente, ao meu ver, como eu já expliquei, daria pra melhorar muito o seu uso, sobretudo, se você entende mesmo da ideia do filósofo em questão. Outra coisa: esse seu parágrafo que estou analisando não responde tanto a questão de se devem existir limites para as artes; digo, não é possível ver nele tanto a sua opinião, ao contrário do que eu fiz ali em cima, em que enfatizei de forma muito clara qual a minha opinião com quem quer se meter a impor limites para a arte.

Veja que se você destacar somente o seu segundo parágrafo da redação e der para alguém ler, a pessoa não vai saber que o tema é “limite” e “artes”, tampouco, qual a sua opinião a respeito disso. Você está expondo demais, você tem que argumentar mais, ser agressivo, ser contundente, demonstrar, com efeito, domínio do tema. Estou falando para a Fuvest, para o ENEM, eu recomendaria outras coisas.

Sobre o terceiro parágrafo da sua redação: você usa o filósofo de forma rasa, daria pra melhorar isso. Talvez escolher outro repertório cultural fosse mais adequado. Eu não tenho dúvidas de que usar Frida Kahlo para dissertar sobre alteridade, identidade e quebra de concepções capitalistas no âmbito artístico seja MUITO MELHOR do que usar o conceito de Indústria Cultural. Por quê? Porque praticamente “todos” os alunos que foram para a segunda fase no ano deste tema provavelmente usaram esse conceito; você tem que se diferenciar. Além disso, parece que esse parágrafo não tem uma finalização tão clara; no último período você fala de censura, mas que tipo de censura? Tem exemplos? Ademais, você fala de formas de artes críticas e que desconstroem visões de mundo capitalistas, mas quais? Cite exemplos (há muitos exemplos atuais). Explique de fato quão poderosas podem ser essas obras na desconstrução de modos de pensar incrustados na sociedade. De novo, parece que você está expositivo demais, mostre um pouco mais de você, e evite expor e mostrar conceitos decorados excessivamente. 

-> A conclusão ficou normal. Continue fechando a redação ciclicamente, assim como você fez, ao retomar a cultura da introdução. Você poderia ter sido mais específico no repertório cultural da introdução; sinceramente, creio que citar a constituição não seja tão efetivo.

Eu acho que você tira uns 72~80. Infelizmente, é muito difícil atribuir uma nota para a redação da Fuvest. 

Reitero: você escreve muito bem, você tem apenas que fazer pequenos ajustes no seu texto. Não tenha medo de mostrar o que você sabe, não tenha medo de mostrar o que você estudou, o corretor quer exatamente isso. Não tenha medo de escrever. 

Eu teria muito mais apontamentos a fazer, mas vou parar por aqui porque já escrevi demais e já mostrei os pontos principais a serem melhorados. 
Bons estudos natalinos, Ferrazini.
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Mensagem por Ferrazini em Dom 15 Dez 2019, 08:30

Nossa Lucas, valeu mesmo cara! Eu pago um site de correção de redação e, embora eles tenham uma seção voltada à Fuvest, acredito que o foco deles seja o Enem mesmo, pois as correções não possuem 10% da profundidade com a qual você abordou a minha redação.

Entendi o que você quis me mostrar, a Fuvest quer autoria, quer que o aluno mostre a sua capacidade argumentativa e reflexiva para além da simples exposição e concatenação de ideias. Vou ler umas das melhores redações de outros anos para perceber algumas mudanças, em termos de estrutura, que podem ser feitas em relação ao Enem.

Em termos de argumentação, vou expor as minhas ideias de maneira mais crítica, buscando, realmente, impactar o corretor. Vou estudar um pouco mais sobre figuras de linguagem, para poder usá-las de maneira adequada no texto, se for o caso.

Mais uma vez, obrigado Lucas! Não conseguiria encontrar uma análise tão boa sobre a minha redação, mesmo que pagasse muito por isso! Você me ajudou a enxergar muitas coisas que com certeza farão a diferença na hora da prova! Obrigado!!!

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