O Contrato [Um conto curto]

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O Contrato [Um conto curto]

Mensagem por Euclides em Sab Nov 17 2012, 13:06

Relembrando a primeira mensagem :

De vez em quando escrevo alguma coisa, se uma idéia ficar me atormentando. Esta é outra:

O Contrato



Ia o fim de tarde quente, sem pressa, como quem ainda não sabe onde a noite fica.

- Com licença, boa tarde! O senhor é o seu Chico Valente?
- Chico Medeiros, um seu criado.

Um breve silêncio de hesitação e o recém chegado tentou novamente:

- Desculpe, eu procuro por um Chico Valente...

- Valentia é fama que o povo me dá, Medeiros é o nome que carrego de minha santa mãe, que Deus a tenha em bom lugar, já que de meu pai nunca soube.

O caboclo continuava sentado num banco feito de uma tora de angico apoiada em duas pedras de arenito, encostado à parede do casebre de taipa, ao abrigo do sol. A propriedade pequena e pouco cuidada tinha a um lado da casa uma roça de milho e do outro, à sombra de um ingazeiro, umas bananeiras que exibiam corações rubros e silenciosos. Um cavalo castanho e de bom aspecto pastava alheio na encosta do morro que subia suave atrás da casa.

Dali ainda se podia divisar, meia légua distante e umas trinta ou quarenta braças mais abaixo no terreno, entre as copas, as telhas esbranquiçadas do povoado.

O recém chegado então tirou o chapéu, enxugou a testa com um lenço amarrotado e perdeu os olhos no céu. O cavalo do qual apeara, apesar de empoeirado e talvez um pouco emagrecido da viagem, era um baio bonito e ainda novo que mostrava o bom cuidado que recebia pelo brilho da pelagem e pelas crinas alouradas e de corte longo que pendiam no pescoço e na testa.

O homem olhou então para o balde de flandres atado a uma corda que estava sobre a borda do poço e perguntou:

- o senhor, seu Chico, me permite servir-me da água? O cavalo também está precisado.

O caboclo esticou o queixo em direção ao poço e consentiu:

- fique à sua vontade. Água é bem de Deus que não se nega a nenhum cristão ou animal.

Tinha acabado de picar o fumo e agora, já enrolado o palheiro, tirava baforadas guardando a pederneira. Beberam homem e animal.

- seu Chico, eu viajei por dois dias prá poder conversar com o senhor.

- dois dias... se vosmecê passou o rio Grande no vau de Igarapava, então deve ser de perto de Barretos...

- isso mesmo, da região. Tenho um sítio perto de Santa Cruz, vila pequena, não sei se o senhor já ouviu falar...

- sei... Santa Cruz... é lugar que nunca fui, mas já ouvi falar. Entonce vosmecê tem um sítio por lá?

- Uns vinte alqueires... não é uma fazenda, mas tenho lá umas roças e uns bois que me dão o sustento adequado.

- eu, por mim, tenho cá essa terrinha que vosmecê pode ver. Afora o mato, que se cresce por si só, pouca coisa que preste, que não sou muito afeito com a lida da enxada. Vosmecê que me perdoe essa franqueza desavergonhada.

- qual! Cada um leva a vida do jeito que quer e Deus permite.

- pois é o que eu digo sempre, é isso mesmo que eu digo. Mas vosmecê ia dizendo...

- nhô Chico... eu tenho um desafeto.

Disse isso revelando um peso enorme nas palavras ditas devagar.

- faz uns dois anos, pouco mais. Como disse vivo da lida dessa terra que me deixou meu falecido pai. Tempos antigos, os limites eram coisa estabelecida mais por consenso do povo do lugar que por documentação. Isso nunca foi razão de qualquer problema ou pendenga de vizinhos. Todo mundo por lá vive pelo trabalho honesto e de boa tenção. Por esse tempo, uns dois anos e tanto, meu antigo vizinho vendeu a propriedade e foi-se embora buscando outra vida lá pelo Mato-Grosso.

O caboclo, olhos vítreos, semicerrados atrás da fumaça, acompanhava.

- foi então que chegou esse homem. Grosseiro, truculento, dois meses depois, se tanto, deu prá reclamar dos limites das nossas terras. Era ele o comprador. Não me procurou de início, mas ficava dizendo na vila, no botequim, na praça em todo lugar que roças minhas avançavam sobre as suas terras e meu boi comia do seu capim. Um dia topei com ele numa ida à vila e, do nada, o homem começou a esbravejar em voz alta esses reclamos e quando eu disse que esses limites não eram de hoje, mas de sempre, desde o meu pai e o pai do vizinho, gritou que meu pai roubara o pai do vizinho e que isso ia ser reparado agora. Enfim logo desisti de argumentar, pois que o fulano espumava raiva e ofensas, desequilibrado, sanguíneo.

Acima das copas um quero-quero decidido investiu contra um gavião que lhe rondou o ninho. Metáfora natural, a Natureza ouvia.

- a coisa foi ficando pior a cada dia, cada mês que passou. De um tempo prá cá, uns seis meses, começou a circular na vila, à boca pequena, que o sujeito ia encomendar minha morte. Uns trinta dias atrás fui procurado no sítio por um sujeito da vila, um tipo meio sem eira nem beira, conhecido de todos, que vive de pequenos serviços aqui e ali e passa mais tempo no botequim que em qualquer outro lugar.

O rosto do caboclo mantinha-se impassível. A tarde ia deitando um jogo de sombras que lhe fazia a feição de um aspecto pétreo, cinzento.

O outro interrompeu a narrativa, deu uns passos, alisou o pescoço do baio com carinho e encostou a testa pesarosa no animal.

O caboclo levantou-se, apoiou as duas mãos nos quadris e fletiu o tronco para trás devagar endireitando a coluna.

- vosmecê há de aceitar um café. O bule está quente no lume da brasa do fogão.

Não esperou resposta e cruzou o umbral da porta sumindo no escuro do interior. Voltou pouco tempo depois trazendo uma caneca de estanho e uma cuia de cabaça de onde fumegava o café. Ofereceu a caneca ao recém-chegado e serviu-se da cuia. Beberam devagar e em silêncio. Já era quase a ave-maria, as aves voltavam aos seus poleiros noturnos e as copas povoadas eram uma algaravia.

O caboclo falou primeiro:

- o sujeito, o sem eira nem beira, atentou contra vosmecê?

- Ah, não! Não é homem disso. Chegou meio como cerca - lourenço e acabou dizendo que o meu desafeto havia lhe dito, umas noites antes no botequim, que estava decidido a contratar um matador para dar cabo da minha vida. Disse-me mais ou menos o seguinte:

“Seu Antonio (pois é esse o meu nome), o Firmino (é o outro) numa noite dessas, a gente tava meio bebo, acabou dizendo que tava decidido a contratar alguém pra lhe dar cabo da vida. Sei que não é assunto meu, mas ele falou em buscar o seu Chico Valente lá de Minas. O que eu sei, seu Antonio, é que esse Chico Valente é matador de fama que, dizem, nunca descumpriu o contratado. Dizem também que uma vez feito o trato o seu Chico nunca volta atrás, quer dizer, não adianta oferecer mais prá ele desistir ou inverter o mando. Sua única chance é chegar antes dele ao seu Chico.”

Por isso estou aqui, se o senhor for essa pessoa...

- Prá eu matar esse Firmino?

- Não, pelo amor de Deus! Fui educado como cristão e nem posso pensar numa coisa dessas.

- Prá quê então?

Pensou, quase aliviado da enorme tensão, que havia encontrado o Chico Valente certo.

- Prá não me matar seu Chico. Estou disposto a lhe contratar para não aceitar um contrato contra minha vida.

Respirou fundo, arquejando, o sangue latejando nas têmporas. Entendeu que dito aquilo sua viagem havia terminado. Estava agora nas mãos do caboclo.

A luz do dia era agora um lusco-fusco em que tudo eram silhuetas. A fumaça grossa do cigarro de palha do caboclo o deixava envolto numa aura azulada e terrível.

Permaneciam os dois mudos.

Podem ter passado dois ou três minutos que o homem que chegara no baio bonito vivenciou como uma eternidade. Então o caboclo começou a falar pausadamente e sem emoção, como se falasse para si mesmo:

- é mesmo tinhoso esse seu desafeto...

Novo e longo silêncio. O caboclo mudou a postura, olhou para o homem e falou agora para ele:

- Sabe seu Antonio, é essa a sua graça, não é? O povo me chama desse jeito, Chico Valente, há muitos anos. Que Deus possa me perdoar, não tenho esperança muita. Dizem que tudo Ele pode perdoar, mas meu fardo é pesado. Nesse muito tempo que já vivi, quase desde molecote, muita gente deixou esta vida prá melhor por obra de uma pressa que eu dei, se é que se pode dizer assim.

Uma pausa como se lhe desfilassem pela lembrança as vítimas de mando.

- de coração que cansei de tudo isso. Não posso de verdade dizer que é arrependimento, é mais cansaço mesmo. Digo a vosmecê que um dia cansei. Decidi parar com tudo. O dinheiro que veio foi, nada juntei. Resolvi que ia parar.

Cuspinhou para o lado e prosseguiu:

- tem uns dois meses, quase isso, que numa tarde dessas um sujeito me veio, do mesmo jeito que vocmecê, assim, perguntando se era eu o Chico Valente. Prá encurtar a história, era esse mesmo Firmino, seu desafeto. Pediu pela vossa vida, por vinte mil réis. Eu já lhe disse que andava cansado disso tudo, cismei e disse ao sujeito que não viajava mais, que se ele quisesse firmar um contrato comigo, devia, ele mesmo, trazer vosmecê até mim...

Silêncio.

- é mesmo tinhoso esse seu desafeto...

Nem mais uma nesga de sol havia no ar. As aves nas copas eram todas silentes. O que mal se via era apenas o lume do braseiro no fogão de lenha, lá dentro, ao lado da porta. Eram as primeiras noites daquele outono.


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Re: O Contrato [Um conto curto]

Mensagem por Matemathiago em Dom Mar 27 2016, 19:55

Sensacional!!

A leitura é envolvente do início ao fim!
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Re: O Contrato [Um conto curto]

Mensagem por rikespiker em Dom Jun 12 2016, 19:04

Final muito bem elaborado. cara, incrível seu conto. 
_Aquele café quente que ao descer pela garganta se encontrara com uma glote bloqueada, esta que tentava suprimir o incômodo causada por uma adaga. Eis que Antonio lança um ultimo olhar a procura daquele que o atingiu, nada mais vê em sua frente além de sombras emanando em sua direção, vindas de um olho que por muitos fora reparado somente uma unica e ultima vez

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Re: O Contrato [Um conto curto]

Mensagem por Gierson Trucolo em Sex Jun 24 2016, 12:40

Euclides escreveu:Livro não. Isso é coisa para escritores de verdade.

Isso me fez lembrar de personagens como Bertrand Russel - matemático e filósofo ganhador de prêmio Nobel de literatura -.
Realmente encantador a escrita professor, não vejo motivos para o senhor não levar a ideia adiante, principalmente com temas tão necessitados no nosso país, como a educação, no qual o senhor já trabalha tanto... 
O trabalho do senhor aqui no fórum recorda-me krishnarmurti, que viajava países criando colégios e dando palestras na tentativa de levar conhecimento adiante. 
Pense na ideia! 
Grande abraço
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Re: O Contrato [Um conto curto]

Mensagem por Thiagozbr em Qua Mar 15 2017, 23:19

Muito bom,parabéns!
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