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nietzsche

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Resolvido nietzsche

Mensagem por krllnx Qua 02 Out 2019, 11:14

Segundo Nietzsche, os dois valores contrapostos
A. “justo” e “injusto”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o segundo valor há muito predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.
B. “bom” e “ruim”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o segundo valor há muito predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.
C. “bom” e “ruim”, “bem” e “mal” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o segundo valor há muito predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.
D. “bom” e “ruim”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o primeiro valor há muito predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.
E. “bom” e “ruim”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o primeiro valor há muito predomine, hoje vivemos um momento de trégua.
Poderiam explicar?


Última edição por krllnx em Sex 04 Out 2019, 10:03, editado 1 vez(es)

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Resolvido Re: nietzsche

Mensagem por EricFerro Qui 03 Out 2019, 23:10

Busque primeiramente interpretar as brilhantíssimas palavras do filósofo Nietzsche:

(Genealogia da Moral - Capítulo 2)

"Todo o respeito, portanto, aos bons espíritos que acaso habitem esses historiadores da moral! Mas infelizmente é certo que lhes falta o próprio espírito histórico, que foram abandonados precisamente pelos bons espíritos da história! Todos eles pensam, como é velho costume entre filósofos, de maneira essencialmente a-histórica; quanto a isso não há dúvida. O caráter tosco da sua genealogia da moral se evidencia já no início, quando se trata de investigar a origem do conceito e do juízo "bom". "Originalmente" - assim eles decretam - "as ações não egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitas, aqueles aos quais eram úteis; mais tarde foi esquecida essa origem do louvor, e as ações não egoístas, pelo simples fato de terem sido costumeiramente tidas como boas, foram também sentidas como boas - como se em si fossem algo bom." Logo se percebe: esta primeira dedução já contém todos os traços típicos da idiossincrasia dos psicólogos ingleses - temos aí "a utilidade", "o esquecimento", "o hábito" e por fim "o erro", tudo servindo de base a uma valoração1 da qual o homem superior até agora teve orgulho, como se fosse um privilégio do próprio homem. Este orgulho deve ser humilhado, e esta valoração desvalorizada: isso foi feito?... Para mim é claro, antes de tudo, que essa teoria busca e estabelece a fonte do conceito "bom" no lugar errado: o juízo "bom" não provém daqueles aos quais se fez o "bem"! Foram os "bons" mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu. Desse pathos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade! Esse ponto de vista da utilidade é o mais estranho e inadequado, em vista de tal ardente manancial de juízos de valor supremos, estabelece dores e definidores de hierarquias: aí o sentimento alcançou bem o oposto daquele baixo grau de calor que toda prudência calculadora, todo cálculo de utilidade pressupõe - e não por uma vez, não por uma hora de exceção, mas permanentemente. O pathos da nobreza e da distância, como já disse, o duradouro, dominante sentimento global de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um "sob" – eis a origem da oposição "bom" e "ruim". (O direito senhorial de dar nomes vai tão longe, que nos permitiríamos conceber a própria origem da linguagem como expressão de poder dos senhores: eles dizem "isto é isto", marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que apropriando-se assim das coisas.) Devido a essa providência, já em princípio a palavra "bom" não é ligada necessariamente a ações "não egoístas", como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que essa oposição "egoísta" e "não egoísta" se impõe mais e mais à consciência humana - é, para utilizar minha linguagem, o instinto de rebanho, que com ela toma finalmente a palavra (e as palavras). E mesmo então demora muito, até que esse instinto se torne senhor de maneira tal que a valoração moral fique presa e imobilizada nessa oposição."


(Fonte: https://neppec.fe.ufg.br/up/4/o/Genealogia_da_Moral.pdf)


Vê-se, portanto, pelo próprio texto, que o grande filósofo não acreditava que a distinção entre "bom" e "mau" --- presente desde os gregos do período clássico (séc's 5 a 4 a.C) e, segundo o mesmo filósofo, introduzida por Sócrates na Grécia clássica, e no oriente pelos judeus, e que perdura até hoje em nossa mentalidade tanto oriental como ocidental na condição de distinção fundamental para se compreender a moral e para se enunciar qualquer julgamento moral sobre alguem, como nos juízos: "Manassés é um homem mau" e "Moisés é um bom homem" --- sempre existiu na história da humanidade! Sim, exatamente, antes, segundo a brilhante tese apresentada pelo filósofo, em tempos remotos, como na grécia de Homero (800 a 500 a.C), ou no norte da Europa dos escandinavos (vikings e dinamarqueses), só existia uma clara oposição entre o "bom", isto é, o nobre, heróico, guerreiro, instintivo, dotado de voz pública, força física, beleza física, etc., e o "ruim", ou seja, o exato oposto ao "bom", a plebe, destituída de força física, a classe escrava --- como os judeos no Egito ou no período do cativeiro da Babilônia (586 a.C a 539 a.C), ou os escravos romanos e gregos, etc --- classe servil, etc. Para ele, a evolução histórica da distinção entre "bom" e "ruim" --- típico de sociedades primitivas, isto é, sociedades de "homens sadios" (que separam a ação da felicidade, vivem o instinto) --- para "bom" e "mau", só ocorreu com a introdução dos valores morais de povos escravizados e a supressão dos valores nobres pelos valores dos escravos, e isso foi consumado, principalmente, segundo o autor, quando o Império Romano do Ocidente sucumbiu à moral cristã, substituindo todos os valores anteriormente cultivados e tidos por supremos pelos nobres romanos, como paixão ao poder e horror à pobreza e à servidão, por valores cristãos como humildade, mansidão, resiliência, paciência, amor, altruísmo, etc. Mas lembre-se, o processo de inversão dos valores dos nobres, segundo o autor, teve seu início histórico com a classe sacerdotal judaica, no período em que os judeus foram escravizados no Egito (segundo alguns historiadores começou na 18º Dinastia com o Faraó Tutmósis III, cujo reinado foi de 1479 - 1425 a.C, irmão de consideração de Moisés segundo alguns crentes na Bíblia (como eu Very Happy)). 



A. “justo” e “injusto”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o segundo valor há muito 

predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.



Incorreta. O objetivo do autor, no trecho citado, como foi explicado por mim anteriormente, não é estabelecer a gênese histórica dos valores "justo" e "injusto", mas sim explicar como os valores "bom" e "ruim" se transformaram na oposição judaico-cristã "bom" e "mau", inexistente em períodos primitivos (pré-históricos), mas dominante no pensamento antigo clássico (séc's 5 a 4 a.C), bem como nos períodos medieval (476 d.C - 1500 d.c), moderno (1500 d.c - 1800 d.c) e contemporâneo (1801 d.C - 2019 d.c).



B. “bom” e “ruim”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o segundo valor há muito 

predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.



Correta. Se segue das explicações dadas no texto. Aqui o autor expõe sua visão de que embora o valor da "maldade" se sobreponha em tempos modernos ao valor da "ruindade", o único existente em períodos pré-históricos, sua obra inícia uma luta contra esses preconceitos, como ele mesmo diz no trecho citado de "A Genealogia da Moral, uma Polêmica", obra de 1876 d.C.



C. “bom” e “ruim”, “bem” e “mal” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o segundo valor há muito 

predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.



Incorreta. A luta é entre "bom" e "mau", não "bem" e "mau", lembre-se que o termo "bem" é um advérbio que não carrega sentido moral, isto é, capaz de avaliar uma conduta humana voluntária, em outras palavras, não dizemos: "João é um bem homem", mas sim "João é um BOM homem". O termo "bem" funciona como adjunto adverbial, isto é, apenas descreve as circunstâncias ou condições em que uma ação verbal ocorre ou é praticada, trata-se de um termo acessório na oração, como na oração "João almoçou bem". Perceba que neste último caso o "bem" em nada tem haver com moral ou ética, apenas diz que João comeu muito, ou ficou satisfeito com sua refeição.

 



D. “bom” e “ruim”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o primeiro valor há muito predomine, ainda agora não faltam lugares em que a luta não foi decidida.



Incorreto. O que predomina na contemporaneidade (época de Nietsche e a nossa) não é a primeira distinção, isto é, o "bom" e "ruim" de sociedades primitivas, mas a segunda distinção "bom" e "mau". Creio que com "primeiro valor" o trecho  se refira à primeira distinção.




E. “bom” e “ruim”, “bom” e “mau” travaram na terra uma luta terrível, milenar, e, embora o primeiro valor há muito 

predomine, hoje vivemos um momento de trégua.



Incorreto. Se segue da explicação dada na alternativa D.





Espero ter te ajudado, fique com Deus! Deus não está morto, mas de todo modo Nietzsche nos ajudou a compreender como a moral verdadeiramente surgiu dentro do processo histórico verdadeiramente humano... Very Happy

EricFerro
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